Tokyo Cafe Show 2026: Cafés Raros, Inovação e Encontros

No segundo dia do Tokyo Cafe Show 2026, os corredores do Tokyo Big Sight estavam movimentados, mas não superlotados. Foi possível passar pelos estandes com tranquilidade, acompanhada por alguns dos meus alunos, observando os produtos, conversando com os expositores e aproveitando cada degustação.

O Tokyo Cafe Show faz parte da CAFERES JAPAN e é uma das maiores feiras profissionais do Japão voltadas para cafeterias, restaurantes e negócios do setor.

A edição de 2026 aconteceu de 4 a 6 de agosto, nos pavilhões Sul do Tokyo Big Sight, reunindo cafés, equipamentos, ingredientes, tecnologias e soluções para quem trabalha na área.

Eu havia chegado à feira com três objetivos bem definidos. Um deles era encontrar, provar e, quem sabe, conseguir uma amostra de Café Libérica. E não precisei esperar muito.

Uma Valiosa Amostra de Libérica do Vietnã

Logo no início da visita, encontrei um Café Libérica produzido no Vietnã, com 85,75 pontos, no estande do Total Feeling. Além de prová-lo, recebi uma amostra que considero especialmente valiosa pela raridade da espécie e pela qualidade apresentada na xícara.

www.totalfeeling.com

O Libérica representa uma parcela muito pequena da produção mundial de café, próxima de 1%. Seus frutos e sementes são maiores do que os do Arábica e podem apresentar características bastante particulares, com corpo intenso, doçura e notas que lembram frutas maduras, flores e especiarias.

Uma pontuação de 85,75 pontos coloca esse café com bastante segurança dentro da categoria de cafés especiais. Significa que, durante uma avaliação técnica, ele demonstrou boa qualidade, limpeza, equilíbrio e características sensoriais capazes de diferenciá-lo.

A Força do Robusta Vietnamita

Ainda entre os estandes do Vietnã, conheci melhor o trabalho da Vinh Hiep, empresa que atua há mais de 30 anos na produção, no processamento e na exportação de cafés.

Com forte presença na região de Gia Lai, a empresa tem se dedicado também à valorização do Robusta vietnamita, mostrando que essa espécie pode oferecer muito mais do que força e intensidade quando recebe atenção desde o cultivo até o processamento.

https://vinhhiepgl.com/

Também recebi uma amostra de seus cafés Robustas e agradeço especialmente pela disponibilidade da equipe em apresentar os produtos, explicar o trabalho da empresa e compartilhar um pouco dessa origem tão importante para o café do Vietnã.

Quero preparar essa amostra com calma, observar seu perfil na xícara e conhecer melhor aquilo que Gia Lai tem a mostrar por meio de seus grãos.

Sempre fico feliz quando encontro estandes do Vietnã. Tenho um carinho especial por esse país, onde aprendi muito sobre cafés e produção orgânica durante a minha passagem por Da Lat. 

Uma viagem tão sonhada e um curso no meio de uma fazenda de cafés orgânicos no Vietnã…me transformou.

A Intensidade dos Cafés da Etiópia

Os cafés da Etiópia conquistaram o meu paladar há muito tempo. Mesmo em uma feira com tantas origens disponíveis, é relativamente fácil identificá-los pela intensidade aromática e pela personalidade que apresentam na xícara.

Considerada o berço do café Arábica, a Etiópia possui uma diversidade genética extraordinária. Em muitas regiões, os cafeeiros são identificados como variedades locais ou heirloom, um amplo conjunto de materiais genéticos cultivados há gerações.

Essa diversidade, aliada às diferenças de altitude, solo e processamento, permite encontrar perfis muito variados. Alguns cafés são delicados e florais, enquanto outros lembram frutas vermelhas, cítricas, pêssego, damasco ou frutas tropicais.

Nos cafés naturais, a secagem do fruto inteiro costuma acentuar a doçura, a intensidade e o caráter frutado da bebida.

Entre os cafés que provei estava uma seleção da PostCoffee, empresa japonesa que trabalha com cafés de diferentes origens e torrefações. Os cafés etíopes apresentados pela marca mostravam exatamente essa diversidade que tanto me encanta.

Também fiquei muito feliz ao descobrir que uma cafeteria da minha própria cidade trabalha com um café especial da Etiópia.

Trata-se do Hoshikawa Cafe, de Kumagaya, também conhecido pelo nome de seu responsável, Hoshikawa Suzuki. O café apresentado era um Worka Special Micro Lot Natural, da região de Gedeb.

https://hoshikawacafe.com/

Segundo as informações da embalagem, trata-se de um café da variedade Heirloom, cultivado entre 1.800 e 2.000 metros de altitude e processado pelo método Slow Drying Natural, no qual os frutos secam lentamente antes da retirada da casca e da polpa.

Esse processo tende a preservar por mais tempo o contato do grão com o fruto, favorecendo uma bebida mais doce, intensa e frutada.

Depois de provar tantos cafés de diferentes países, é muito bom descobrir que uma experiência assim também pode ser encontrada tão perto de casa.

Outro encontro importante foi com a Horiguchi Coffee, empresa japonesa reconhecida pelo trabalho de seleção, torra e fornecimento de cafés de alta qualidade.

Entre os lotes etíopes trabalhados pela empresa estão cafés de Guji-Hambela, cultivados em altitudes que podem chegar a 2.400 metros. A Horiguchi descreve esses cafés como limpos, complexos e capazes de apresentar notas cítricas, frutas claras, frutas vermelhas e aromas florais, dependendo da torra e do método de processamento.

Saí desses encontros com duas amostras, que serão preparadas e avaliadas com a atenção que merecem. Receber um café é sempre uma alegria, mas conhecer um pouco de sua origem e do trabalho por trás dele torna a futura degustação ainda mais interessante.

Rosa Coffee e a Histórica Faema E61

Nessas feiras, quase sempre encontramos o pessoal do Rosa Coffee, parceiros da marca italiana Faema, conhecida por suas máquinas profissionais de espresso e moedores.

São encontros que já fazem parte das minhas visitas aos grandes eventos de café no Japão.Entre as máquinas da Faema, tenho uma paixão especial pela E61.

Lançada em 1961, ela se tornou um marco na história das máquinas profissionais de espresso. O modelo ajudou a consolidar o uso da bomba para produzir pressão durante a extração e também ficou conhecido pelo sistema de pré-infusão, que prolonga o contato inicial da água com o café antes da extração propriamente dita.

Esse processo contribui para uma saturação mais uniforme do café. A própria Faema apresenta a E61 como a máquina que fez história e destaca seu sistema de pré-infusão como uma das características centrais do modelo.

Além de sua importância técnica, a E61 possui um design inconfundível. A estrutura metálica, as linhas clássicas e sua presença imponente fazem dela uma máquina que continua despertando admiração mais de seis décadas depois de seu lançamento.

Existem máquinas que cumprem perfeitamente sua função. Outras carregam história. Para mim, a E61 reúne as duas coisas.

Equipamentos e Soluções Para Quem Empreende

O Tokyo Cafe Show sempre surpreende pela quantidade de soluções desenvolvidas para facilitar a rotina de quem trabalha com alimentos e bebidas.

Vimos máquinas capazes de preparar e selar embalagens de drip coffee em poucos segundos, um recurso interessante para pequenas torrefações, cafeterias e marcas que desejam produzir seus próprios sachês individuais com mais rapidez.

Conhecemos um equipamento compacto da Nicoh Coffee, com uma proposta praticamente all in one.

O sistema recebe os grãos, a água, faz a moagem, prepara e serve o café, reunindo diferentes etapas em um único equipamento portátil. A marca apresenta seus modelos como soluções elétricas e compactas para o preparo de espresso em diferentes ambientes.

Encontramos ainda fornos a gás capazes de assar pizzas e tortas em aproximadamente dois minutos, uma alternativa que certamente chama a atenção de quem precisa aumentar a velocidade do serviço sem ocupar o espaço de uma grande cozinha.

O matcha, que se transformou em uma febre mundial, apareceu em muitas versões, tonalidades e aplicações. Havia também embalagens biodegradáveis, chocolates, sobremesas, pães, xaropes, mel, açaí, azeites e diversos produtos voltados ao desenvolvimento de novos cardápios.

A Saborosa Surpresa da Carotino

Entre tantas descobertas, uma das surpresas mais saborosas veio da Carotino, empresa que nos recebeu com enorme gentileza e apresentou sua manteiga ghee.

A ghee é produzida a partir da manteiga, que passa por um processo de aquecimento para a retirada da água e dos sólidos do leite. O resultado é uma gordura de sabor mais concentrado, aroma delicadamente amanteigado e boa versatilidade na cozinha.

https://www.betterghee.com/

Ela pode ser utilizada em preparações doces ou salgadas, para refogar, assar e finalizar receitas. Também possui um ponto de fumaça mais elevado do que a manteiga comum, o que permite seu uso em preparos submetidos a temperaturas maiores.

Mais do que conhecer um novo produto, o que tornou esse encontro especial foi a maneira atenciosa como fomos recebidos.

Em uma feira tão grande, com tantas pessoas passando pelos corredores, a gentileza de quem para, explica e permite que o visitante conheça verdadeiramente aquilo que está sendo apresentado faz toda a diferença.

Por isso, a Carotino merece um destaque especial neste artigo. Pelo produto, naturalmente, mas também pelo cuidado com que nos acolheu.

Um Tigre Desenhado no Café

Para encerrar o dia, pudemos acompanhar Sasaki Izuru, da Ogawa Coffee, vice-campeão do Japan Latte Art Championship 2025. Ele me deu a oportunidade de escolher qual desenho seria preparado. Entre as opções, escolhi o tigre, e ele o executou com perfeição.

Observar um profissional trabalhando de perto permite perceber aquilo que uma fotografia pronta nem sempre mostra: o controle do fluxo, o posicionamento da leiteira, a velocidade dos movimentos e a precisão necessária para transformar leite e espresso em desenho.

Foi uma maneira bonita de terminar um dia intenso, aproveitado até o último minuto.

Até a Próxima Feira

Estar nesses espaços é sempre gratificante. É bom saber e ensinar, mas também entender e aprender. É assim que continuo buscando novos conhecimentos, degustando cafés, conhecendo equipamentos e observando as mudanças de um mercado que nunca permanece parado.

Talvez seja justamente isso que continue me levando às feiras depois de tantos anos: a possibilidade de descobrir algo novo e encontrar outras histórias dentro de cada xícara.

O Tokyo Cafe Show 2026 terminou para mim com amostras na bolsa, muitas imagens na câmera e novas experiências para compartilhar.

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