Há dois anos, Mayte Pujay, ainda não sabia exatamente com o que queria trabalhar. Hoje, abre a traseira do próprio carro, monta sua pequena cafeteria e serve cafés em eventos no Japão.
Entre uma coisa e outra, vieram estudo, viagens, alguns medos e uma certeza que foi crescendo aos poucos: era no café que ela queria estar.
Quando conheci Mayte, durante um dos meus Cursos de Barista, eu ainda não sabia o quanto o café faria parte da vida dela. Ela também não.
Naquela época, conta que pensava muito sobre o futuro e se preocupava por ainda não saber com o que gostaria de trabalhar. Até que alguma coisa aconteceu durante o curso.
“Rose, quando você começou a falar sobre o café, fiquei arrepiada.”
Não foi uma decisão repentina. A certeza veio aos poucos. Mas, quando terminou o curso, Mayte lembra de ter saído com um pensamento diferente:
“Obrigada. Agora sei com mais clareza o que eu quero.”
Talvez tenha sido ali que a May Coffee começou a existir, mesmo antes de ter nome, logotipo ou um carro transformado em cafeteria.

O Curso Terminou. A Curiosidade, não.
Uma coisa sempre me chamou a atenção em Mayte: ela nunca tratou o curso como ponto de chegada.
Continuou estudando, frequentando eventos ligados ao café, experimentando, observando e procurando aprender mais.

Algum tempo depois, voltou para me ajudar em outra turma. Dessa vez, já não estava ali apenas como aluna, estava participando de toda preparação que envolve um curso.
“Foi muito legal porque vi que tinha evoluído. Porém, ao mesmo tempo, queria me desafiar e aprender mais.”
Essa inquietação parece acompanhá-la até hoje. Ela mesma reconhece que ainda há muito para aprender e fazer. Mas também deixa claro que desistir não está nos planos.
Uma Mochila e Muitas Cafeterias
O café também começou a acompanhar Mayte para fora do Japão. Em uma viagem de mochila pela Ásia e pela América do Sul, ela passou pela Tailândia, Vietnã e Peru, seu país de origem.
E não viajou apenas para conhecer lugares.

Mayte queria conhecer cafeterias, conversar com baristas, ouvir suas histórias e entender outras maneiras de enxergar o café.
“Minha viagem inclusive foi mais para aprender, visitar muitas cafeterias e ouvir um pouco sobre a história de cada barista que encontrei. Com certeza isso me motivou ainda mais.”
Entre tantos lugares, um permanece especialmente vivo em sua memória: a Inchala Teahouse em Bangkok. Ela se emociona quando fala daquele dia.
Encontrou pessoas que, segundo ela, amavam e valorizavam o grão. Sentiu-se acolhida por baristas que compartilhavam a mesma paixão que começava a reconhecer em si mesma.

“Literalmente aquele dia mudou muito a forma como vejo a vida. Conheci pessoas incríveis, baristas que amam e valorizam o grão. Me senti tão acolhida que sempre lembrarei com amor. E voltarei.”
Às vezes uma viagem nos apresenta um lugar. Outras vezes, nos apresenta uma versão de nós mesmos que ainda não conhecíamos.
A Ideia Que Veio de Uma Praia no Vietnã
Foi também durante a viagem que apareceu uma das ideias mais importantes para o que viria depois.
Na praia de Oike, no Vietnã, Mayte viu um carro sendo utilizado de uma maneira parecida com o que imaginava para vender café.
A reação foi simples: “Pensei: eu também posso.”
E fez. Hoje, seu carro é parte da identidade da May Coffee.
Nos dias de evento, a traseira se transforma. Ela monta a tenda, organiza a estrutura, prepara os equipamentos e começa a servir.
Antes de customizar o carro, conta que a montagem exigia muito mais trabalho. Agora o processo ficou mais prático, embora a preparação comece no dia anterior.

Ela carimba copos, coloca adesivos, separa os materiais e deixa tudo organizado para chegar ao local, montar a tenda e ligar o gerador.
É trabalho. Mas Mayte quase esquece disso quando começa a servir.
“Sinceramente, eu não vejo tanto como um trabalho. Eu estou amando fazer isso.”
A May Coffee Nasceu no Caos
A marca, porém, não nasceu em uma fase tranquila.
Mayte conta que já pensava em fazer alguma coisa relacionada ao café, mas o medo a impedia de avançar.
Até um dia em Osaka. Ela estava dentro de um estacionamento e começou a chorar.
Vivia um período particularmente difícil e, no meio daquela tristeza, teve um pensamento que mudaria sua maneira de encarar o sonho: se já estava atravessando tudo aquilo, por que não aproveitar aquele momento para finalmente tentar realizar algo que desejava tanto?
“Foi assim que fui atrás de tudo.”
A May Coffee nasceu no que ela própria chama de caos. Talvez por isso exista tanta história por trás daquela estrutura aparentemente simples montada na traseira de um carro.
May Coffee
O nome surgiu de uma forma bem menos dramática.
Em uma reunião com amigos, Mayte os chamou para experimentar seus cafés. Em algum momento da conversa, “May Coffee” apareceu.
“Saiu do nada”, conta, rindo.
O gato no logotipo, por outro lado, não saiu do nada.

Quem conhece Mayte sabe de sua paixão por gatos desde criança. Hoje, três vivem com ela e outros dois que vivem na rua recebem seus cuidados. E ela resume essa relação de um jeito bonito:
“Eu sempre falo que, na verdade, eu não os resgatei. Eles me resgataram.”
O gatinho acabou encontrando seu lugar na marca. E talvez não pudesse ser diferente.
Quando Uma Fila se Forma e o Gerador não Liga
Empreender também produz histórias que depois viram motivo de riso.
Mayte lembra de um evento em que o gerador simplesmente não queria funcionar.
O problema é que os clientes começaram a chegar. E continuaram chegando.
Quando percebeu, havia uma fila se formando diante dela.
“Me senti feliz e, ao mesmo tempo, bateu um nervosismo.”
É uma imagem que diz muito sobre os primeiros passos de qualquer pequeno negócio: você deseja que as pessoas apareçam e, quando elas aparecem justamente no momento em que alguma coisa resolve dar errado, precisa respirar e resolver.
Mas são os comentários dos clientes que fazem tudo valer a pena.
Mayte diz que uma das coisas que mais gosta de ouvir:
“Nossa, esse café é diferenciado e isso me dá mais ânimo de continuar.”
Um Pouco do Peru Dentro da Xícara
Embora a May Coffee sirva cafés filtrados, espresso e bebidas com leite, há uma criação especialmente pessoal no cardápio. A Maycoffeechicha.

A bebida leva como referência a chicha feita com milho roxo cultivado nos Andes peruanos e nasceu do desejo de Mayte de colocar um pouco de sua origem dentro da própria marca.
“Quis que essa fosse minha bebida autoral porque representa minha nacionalidade, o país de onde eu venho.”
Se precisasse escolher um método para representá-la, no entanto, ela não hesita: Chemex.
Nos grãos, sua preferência passa pelos arábicas e pelo Excelsa.
A May Coffee começa, assim, a ganhar uma identidade que vai além de simplesmente vender bebidas. Há um pouco das viagens, das descobertas e das origens de Mayte em tudo o que ela está construindo.
“Descobri que sou mais corajosa do que imaginava”
Perguntei a Mayte o que o café havia lhe ensinado sobre ela mesma.
A resposta talvez seja a melhor definição desta história:
“Descobri que sou mais corajosa do que imaginava. Descobri que posso muitas coisas que antes achava que não era capaz. O café mudou minha vida, com toda certeza. E agora é só o começo de tudo que está por vir.”
Como professora, acompanhar uma aluna depois que um curso termina tem um significado muito particular para mim.
Eu ensino técnica. Posso orientar, corrigir e dividir aquilo que aprendi em tantos anos trabalhando com café. Mas existe uma parte que nenhum professor consegue fazer pelo aluno: continuar.
Mayte continuou.
Estudou quando ninguém estava cobrando. Foi a eventos. Viajou. Conheceu cafeterias. Voltou para uma sala de aula para ajudar e aprender mais. Criou uma marca. Adaptou o carro. Colocou uma tenda de pé. Ligou, ou tentou ligar um gerador. E começou a servir seu próprio café.
Ao perguntar com quem ela gostaria de tomar um café hoje, sua resposta me pegou de surpresa. Ela escolheu a mim (confesso que por essa eu não esperava!)
Disse que, desde que saiu do curso em 2024, continuamos conversando não apenas sobre café, mas também sobre escolhas, planos e sobre colocar uma meta que estava no papel em movimento.
Receber uma resposta dessas é um daqueles presentes que a profissão de professora nos entrega de vez em quando. Porque também existe algo que o aluno talvez não perceba: nós acompanhamos.
E no meu caso, estou sempre torcendo pelo sucesso de todos os meus alunos.
O carro é apenas o começo
Por enquanto, a May Coffee acontece sobre rodas. Mas Mayte já consegue enxergar o que deseja construir.
“May Coffee por agora é um food truck, mas logo será uma cafeteria fixa onde todo mundo poderá apreciar e experimentar o melhor café, lugar e aperitivos.”
Não sabemos exatamente quando isso acontecerá. E talvez nem seja preciso saber agora.
Há dois anos, aquela menina preocupada com o futuro também não sabia onde estaria hoje. Agora ela sabe para onde quer ir.
Antes de terminar nossa conversa, pedi que deixasse algumas palavras para quem também guarda uma ideia, mas continua esperando o medo desaparecer.
Mayte não prometeu que ele desaparece. Pelo contrário.
“Mesmo com medo, só vai. Eu também sempre tive e ainda tenho esse medo. Às vezes ele fica por um tempo, mas depois de começar, já era.”
Ela começou em uma época difícil. Em alguns momentos achou que estava sozinha. Depois olhou ao redor e encontrou pessoas experimentando aquilo que havia criado.
E é justamente isso que hoje lhe diz que está no caminho certo.
“Vai ter momentos em que você vai querer desistir, mas você tem que acreditar nesse seu sonho.”
Talvez seja cedo para contar onde a história da May Coffee vai terminar. Mas é um ótimo momento para contar onde ela começou.
Na inquietação de uma menina que ainda não sabia com o que trabalhar. Em uma sala de aula. Em cafeterias encontradas pelo mundo. Em uma praia no Vietnã. Em um estacionamento de Osaka. Na traseira de um carro.
E, finalmente, nas mãos de alguém que decidiu parar de esperar o medo passar para começar.
