A vida, às vezes, não pede permissão. Ela simplesmente nos leva… e foi assim que cheguei a Poços de Caldas, sem planejamento. Quase no susto mesmo!
Enfrentava um problema que envolvia a minha saúde e encontrava dificuldades para achar um profissional que resolvesse, no tempo que eu tinha disponível no Brasil.
Conheci o Sr. Valdeci no ano anterior, ambos trabalhando na Dinamarca no Campeonato de Baristas organizado pela SCA, e mantivemos contato mediado pelo café, sem imaginar que aquele encontro se transformaria em amizade.
Foi então que surgiu o convite para ir até lá. Quando a vida pediu decisão rápida, ele disse “vem que a gente te ajuda”. E eu fui. Doze horas de busão e em Poços de Caldas, encontrei o cuidado, uma família linda – e a cura (falarei sobre isso em, um outro momento).

A Cidade Que Me Surpreendeu
Eu não havia pesquisado Poços de Caldas. Sabia apenas que era uma cidade turística e que encontraria bons cafés, produzidos ali mesmo, naquela região.
Eu sabia da existência de plantações de café e, sem saber ao certo se meu tratamento daria resultado, uma das minhas maiores alegrias era simplesmente estar em lugares onde o café nasce.
O café sempre foi, para mim, mais do que bebida — é território, origem, vida acontecendo, em todos os momentos, não somente em sala de aula. Imaginei que ficaria em uma fazenda, distante da cidade, mas tudo acabou sendo uma surpresa boa atrás da outra.
Fiquei muito bem instalada e o que eu não esperava era me deparar com uma cidade tão bonita, arborizada e limpa. Poços de Caldas me recebeu de forma delicada, unindo aquilo que mais me atrai — o café — a um cenário que acolhe, desacelera e convida a ficar.

Foi assim que o café deixou de ser apenas expectativa e passou a dividir espaço com o próprio lugar. Entre uma descoberta e outra, comecei a olhar Poços de Caldas com mais atenção, sem pressa, permitindo que a cidade se revelasse aos poucos.
As ruas arborizadas, as praças bem cuidadas e as buganvílias em plena floração desenhavam um cenário que, em muitos momentos, me fazia esquecer que estava em Minas Gerais.
Havia algo ali que lembrava pequenas cidades europeias: o cuidado com os espaços, o ritmo mais lento, a sensação de ordem e beleza convivendo naturalmente.
Poços de Caldas se mostrou delicada e acolhedora, unindo aquilo que mais me atrai — o café — a um ambiente que convida à pausa, à observação e à permanência. Não é apenas um lugar de passagem; é um lugar que sabe receber.

O Cristo no alto da cidade era a cereja do bolo. Imponente e sereno, parecia observar Poços de Caldas em constante vigília. Tive o privilégio de ficar hospedada na casa dos meus amigos com vista direta para ele, como se aquele olhar do alto também fizesse parte do cotidiano.
Meu quarto, no segundo andar, dava a sensação de estar ainda mais próxima; havia ali um acolhimento silencioso, quase um abraço constante. Dormia com a janela aberta, deixando o ar fresco da manhã entrar sem pressa, respirando aquele silêncio bom que só alguns lugares sabem oferecer.
A luz do dia chegava devagar, transformando o céu e a cidade aos poucos. Foram dias de paz — daquela paz que não se explica, apenas se sente.

Madrugadas e um Primeiro Café Compartilhado
Durante os dias em que estive no Brasil, acordei praticamente todos os dias antes do sol nascer. Era automático. Meu corpo parecia saber que aquele tempo era precioso demais para ser desperdiçado e queria esticar os dias e viver cada minuto com presença.

Minha companheirinha das madrugadas era a Luna, uma cachorrinha meiga, dessas que não fazem barulho, apenas ficam ao seu lado.
Eu, que sou a doida dos bichinhos, já tirava ela da cama cedo também e nesses “amanheceres” fazíamos companhia uma para outra no primeiro café do dia, olhando para o Cristo enquanto o céu ia clareando devagar…
Café, Território e Profundidade
Tive a oportunidade de conhecer a Fazenda Mariano, com seus impressionantes 430 mil pés de cafés! Fui recebida com atenção e generosidade pelo Henrique, que conduziu a visita com paciência e profundo conhecimento adquirido desde a infância. Junto com o aprendizado, vieram as histórias da família contadas com muito orgulho.

Ali pude observar, com calma e olhar atento, toda a engrenagem que sustenta a produção de cafés especiais: do cuidado no campo aos processos de pós-colheita, da logística precisa ao rigor em cada detalhe.
Para quem consome café — e mesmo para muitos que trabalham diariamente com ele — é difícil imaginar quantas etapas existem antes de a bebida chegar à xícara.

Cada decisão tomada ao longo do caminho impacta diretamente o resultado final. Estar ali reforçou algo que sempre digo e em que acredito profundamente: nós, Baristas, somos a etapa final de uma cadeia longa, complexa e profundamente humana, construída por muitas mãos, muito conhecimento e uma dedicação que começa muito antes do primeiro gole.

A Região Vulcânica e a Importância do Lugar
Poços de Caldas está localizada sobre um dos maiores complexos vulcânicos do Brasil. Embora o vulcão esteja extinto há milhões de anos, ele deixou como herança um solo riquíssimo em minerais. Esse detalhe geológico faz toda a diferença para a agricultura e, especialmente, para o café.

Solos de origem vulcânica costumam ser férteis, bem drenados e ricos em nutrientes essenciais para o desenvolvimento dos cafeeiros.
Somados à altitude, ao clima mais ameno e às variações térmicas da região, criam condições ideais para a produção de cafés especiais, com maior complexidade sensorial, acidez equilibrada e aromas mais definidos.
O café é, acima de tudo, território. Ele carrega no sabor a história do solo, do clima, da mão que cuida, da decisão tomada no momento certo. Estar em Poços de Caldas foi também compreender, mais uma vez, como geografia e café caminham juntos.

Armazém, Logística e o Mundo Dentro de Lotes
No armazém, acompanhei os empacotamentos, as separações e os envios das cargas que seguem para diferentes partes do mundo. Lotes que carregam mais do que grãos: levam trabalho, conhecimento, risco, investimento e paixão.

Estar ali aprendendo e ainda hospedada na casa de um profissional Q Grader, com mais de 40 anos dedicados ao café, foi um dos maiores presentes que recebi neste ano — e talvez na vida.
Um Q Grader é um provador certificado internacionalmente, treinado para avaliar cafés de forma técnica e sensorial, identificando qualidade, defeitos, potencial e identidade do grão. Mais do que um título, é o reconhecimento de décadas de estudo, prática, rigor e respeito pelo café em todas as suas etapas.

O mercado brasileiro de cafés especiais segue em plena expansão — e, com ele, cresce também a necessidade de avaliações técnicas cada vez mais precisas.
A demanda por profissionais Q Graders acompanha esse movimento e torna esses especialistas cada vez mais essenciais ao longo da cadeia do café.
Quando um Q Grader atua próximo à produção, a identificação de notas sensoriais, padrões de qualidade e possíveis defeitos acontece de forma mais rápida e eficiente.
Esse olhar técnico otimiza processos, reduz falhas e garante que os cafés cheguem ao mercado com mais agilidade, mantendo o padrão de qualidade esperado para o consumo.

Aprendi muito em conversas que iam muito além da técnica. Falávamos de café como território, como cultura, como responsabilidade.
E, como não poderia ser diferente, nossas conversas sempre terminavam em café — não apenas na xícara, mas na troca, na escuta e no silêncio que só quem vive o café de verdade sabe compartilhar.
Gratidão Como Fio Condutor
Poços de Caldas não foi apenas um destino. Foi um ponto de pausa, de cura e de aprendizado profundo. Um lugar onde a vida me ensinou, mais uma vez, que aceitar ajuda também é um ato de coragem.
Que o café conecta pessoas, histórias e gerações. E que algumas viagens não acontecem para serem planejadas, mas para serem vividas.
Volto dessa experiência com o coração mais calmo, o olhar mais atento e uma gratidão que talvez eu nunca consiga traduzir por completo. Com a certeza de que algumas cidades – e pessoas – entram na nossa vida não como passagem, mas como abrigo.

Ao senhor Valdeci, à Renata e a toda a família que me acolheu com tanto carinho, deixo aqui meu amor, meu respeito e minha eterna gratidão. Por abrirem a casa, o tempo e o coração, e por transformarem um momento delicado em afeto e amizade. Hoje, vocês fazem parte da minha vida — e da minha história.